DOENÇA CELÍACA E ALERGIAS ALIMENTARES

Fernando Savóia • 1 de outubro de 2024

O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O GLÚTEN E A ESOFAGITE EOSINOFÍLICA

As alergias alimentares têm se tornado um problema crescente em todo o mundo, com destaque para duas condições que afetam diretamente o sistema digestivo: a doença celíaca e a esofagite eosinofílica. Ambas estão associadas a reações imunológicas desencadeadas por proteínas alimentares, como o glúten, e compartilham sintomas que podem ser confundidos, dificultando o diagnóstico. Este texto aborda as principais características de cada uma dessas condições, o papel dos exames endoscópicos no diagnóstico e como a eliminação de alérgenos é fundamental no tratamento.


DOENÇA CELÍACA


O Que é Doença Celíaca?

A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten, uma proteína presente no trigo, centeio e cevada. Quando uma pessoa com doença celíaca consome glúten, o sistema imunológico ataca o revestimento do intestino delgado, causando inflamação e danos à mucosa intestinal. Isso compromete a absorção de nutrientes, levando a diversos sintomas gastrointestinais e sistêmicos.

Em indivíduos predispostos geneticamente, o glúten ativa uma resposta imune que ataca as vilosidades intestinais, pequenas estruturas que revestem o intestino delgado e são responsáveis pela absorção de nutrientes. O ataque às vilosidades provoca atrofia vilosa, levando à má absorção de nutrientes, que pode resultar em uma série de manifestações clínicas.


Mecanismo imunológico: Na doença celíaca, o glúten é decomposto em fragmentos peptídicos que não são completamente digeridos. Esses fragmentos, principalmente a gliadina, atravessam a barreira intestinal e desencadeiam uma resposta imune mediada por linfócitos T, resultando na liberação de citocinas inflamatórias. Essas citocinas levam à destruição progressiva das vilosidades, causando a típica atrofia vilosa observada na biópsia intestinal.

Sintomas da Doença Celíaca:

Além dos sintomas gastrointestinais clássicos, como diarreia crônica, perda de peso e distensão abdominal, a doença celíaca pode apresentar sintomas sistêmicos, incluindo:

  • Anemia ferropriva resistente ao tratamento;
  • Osteoporose precoce devido à má absorção de cálcio e vitamina D;
  • Dermatite herpetiforme, uma manifestação cutânea associada à doença celíaca;
  • Problemas neurológicos, como enxaquecas e neuropatias.


Diagnóstico da Doença Celíaca

O diagnóstico de doença celíaca envolve exames laboratoriais, como a dosagem dos anticorpos anti-transglutaminase tecidual (tTG) e antiendomísio (EMA), que são altamente específicos para a doença. Em casos de positividade nos testes sorológicos, a endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno é considerada o padrão-ouro para confirmar o diagnóstico. A biópsia revela atrofia vilosa, hiperplasia das criptas e infiltrado de linfócitos intraepiteliais, as principais características histológicas da doença celíaca.


ESOFAGITE EOSINOFÍLICA


O Que é a Esofagite Eosinofílica?

A esofagite eosinofílica é uma doença crônica caracterizada pela infiltração anormal de eosinófilos no epitélio esofágico, resultando em inflamação e disfunção do esôfago. Diferente da doença celíaca, que é uma resposta autoimune ao glúten, a esofagite eosinofílica é uma condição alérgica mediada por uma resposta imune exagerada a diversos alimentos, incluindo o glúten, leite, ovos, soja, entre outros.


Mecanismo inflamatório: Na esofagite eosinofílica, a exposição a alérgenos alimentares leva ao recrutamento de eosinófilos, células imunes que normalmente não estão presentes no esôfago. Esses eosinófilos liberam mediadores inflamatórios, como citocinas e quimiocinas, que danificam o tecido esofágico. A inflamação crônica causa fibrose, estenose e dismotilidade esofágica, resultando em sintomas como disfagia e impactação alimentar.

Sintomas da Esofagite Eosinofílica:

Os sintomas da esofagite eosinofílica podem variar de acordo com a idade, mas incluem:

  • Disfagia (dificuldade para engolir) e sensação de que o alimento fica preso no esôfago;
  • Dor torácica, que pode ser confundida com sintomas de refluxo gastroesofágico;
  • Impactação alimentar, uma emergência médica em que o alimento fica bloqueado no esôfago;
  • Refluxo que não responde a tratamentos convencionais.


Diagnóstico da Esofagite Eosinofílica

O diagnóstico é feito por meio de endoscopia digestiva alta, onde são observadas características típicas, como anéis esofágicos, sulcos longitudinais e exsudato branco. A confirmação ocorre com a biópsia, que mostra a presença de mais de 15 eosinófilos por campo de alta potência no tecido esofágico. Em conjunto com a exclusão de outras causas, como refluxo ácido, a esofagite eosinofílica é confirmada.


PREVENÇÃO E CUIDADOS

A prevenção das complicações da doença celíaca e da esofagite eosinofílica depende, em grande parte, do diagnóstico precoce e da adoção de uma dieta restrita. Para a doença celíaca, isso significa a eliminação total do glúten da dieta, enquanto na esofagite eosinofílica, os alérgenos específicos devem ser identificados e removidos da alimentação do paciente.


No entanto, é importante ressaltar que o papel da endoscopia e da colonoscopia vai além do diagnóstico inicial. Pacientes com essas condições precisam de acompanhamento regular, e exames endoscópicos periódicos são essenciais para monitorar a resposta ao tratamento e detectar possíveis complicações. No caso da esofagite eosinofílica, o exame ajuda a avaliar o grau de inflamação residual e a presença de estenoses (estreitamentos esofágicos) que podem requerer intervenção terapêutica, como dilatação endoscópica.


Exames Preventivos e Controle:

Endoscopia digestiva alta com biópsia: Fundamental tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento contínuo da inflamação em ambas as condições.

Colonoscopia: Embora não seja diretamente associada à esofagite eosinofílica, a colonoscopia pode ser útil no monitoramento de pacientes com doença celíaca que apresentam risco de complicações como linfoma intestinal.

Exames laboratoriais regulares: Para verificar os níveis de anticorpos específicos no caso da doença celíaca e para monitorar sinais de inflamação sistêmica na esofagite eosinofílica.

Consulta regular: A consulta regular com um especialista em gastroenterologia e alergologia é vital para o controle de ambas as condições. Esses exames preventivos não apenas ajudam a prevenir complicações graves, como câncer de esôfago no caso da esofagite eosinofílica, mas também garantem que o paciente tenha uma melhor qualidade de vida, minimizando os impactos dessas doenças no dia a dia.


Conclusão

A relação entre o glúten e doenças como a doença celíaca e a esofagite eosinofílica reforça a importância de identificar precocemente as alergias alimentares e adotar mudanças na dieta para prevenir danos à saúde intestinal. O acompanhamento regular com exames, como a endoscopia, é essencial para monitorar a evolução das doenças e ajustar os tratamentos conforme necessário.


Não ignore os sinais do seu corpo! Agende uma consulta e faça os exames necessários para proteger sua saúde digestiva.


Referências:

  1. AGÊNCIA EINSTEIN. Doença celíaca: quando o glúten é o verdadeiro vilão da saúde. Disponível em: https://www.agenciaeinstein.com.br/texto/doenca-celiaca-quando-o-gluten-e-o-verdadeiro-vilao-da-saude/.
  2. FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA UNICAMP. Esofagite eosinofílica. Disponível em: https://www.fcm.unicamp.br/comau/sites/default/files/2022-08/ESOFAGITE%20EOSINOF%C3%8DLICA.pdf.
  3. HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Doença celíaca. Disponível em: https://www.einstein.br/doencas-sintomas/doenca-celiaca.
  4. HOSPITAL PEQUENO PRÍNCIPE. Esofagite eosinofílica. Disponível em: https://pequenoprincipe.org.br/guia-de-doencas/esofagite-eosinofilica/.
  5. HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Apenas pessoas intolerantes ao glúten ou à lactose devem excluir esses alimentos de suas dietas?. Disponível em: https://hospitalsiriolibanes.org.br/blog/alimentacaoebemestar/apenas-pessoas-intolerantes-ao-gluten-ou-a-lactose-devem-excluir-esses-alimentos-de-suas-dietas.
  6. INSTITUTO FEDERAL DE SANTA CATARINA (IFSC). Alergias e intolerâncias alimentares: saiba o que são. Disponível em: https://www.ifsc.edu.br/web/ifsc-verifica/w/alergias-e-intolerancias-alimentares-saiba-o-que-sao.
  7. JOHNS HOPKINS MEDICINE. Dietary changes for celiac disease. Disponível em: https://www.hopkinsmedicine.org/health/conditions-and-diseases/celiac-disease/dietary-changes-for-celiac-disease
  8. LIACOURAS, Chris A.; FURUTA, Glenn T.; HIRANO, Ikuo; ATWOOD, Walter; KIRKORIAN, Kamal S.; AVANZINO, John L.; et al. Eosinophilic esophagitis: Updated consensus recommendations for children and adults. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23672638/.
  9. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Doença celíaca. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/doenca-celiaca/.
  10. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). Celiac Disease: Symptoms, Diagnosis, and Treatment. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/celiac-disease 
  11. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Esofagite eosinofílica. Disponível em: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/esofagite-eosinofilica/.
  12. SOUZA, Carlos Eduardo Oliveira de; CARVALHO, Silvana Regina; BARROS, Juliana Hermeto Cupertino. Esofagite eosinofílica: aspectos atuais e desafios. Revista Médica de Minas Gerais, v. 26, n. 6, 2016. Disponível em: https://rmmg.org/artigo/detalhes/2104.
Por Dr. Fernando Savóia 12 de março de 2025
Exames Digestivos na Gestação: Endoscopia e Colonoscopia com Segurança e Empatia Olá, sou o Dr. Fernando Savóia, endoscopista. Hoje quero conversar com você, gestante, sobre um assunto que costuma gerar dúvidas e apreensão: a realização de exames digestivos durante a gravidez, em especial a endoscopia digestiva alta (EDA) e a colonoscopia. Sei que a gestação é um momento especial e que qualquer procedimento médico invasivo pode preocupar as futuras mamães. Meu objetivo aqui é explicar de forma clara e empática quando esses exames são realmente indicados, quais são os riscos e benefícios envolvidos, e como asseguramos a segurança tanto da mãe quanto do bebê durante todo o processo. Afinal, o cuidado especializado e a experiência profissional fazem toda a diferença para um atendimento seguro. Vamos por partes, abordando as principais questões: Indicações de Exames Digestivos na Gestação Em um mundo ideal, conseguiríamos postergar qualquer exame invasivo até após o parto. Porém, algumas situações durante a gravidez podem justificar a necessidade de uma endoscopia ou colonoscopia mesmo antes do bebê nascer. As diretrizes médicas recomendam que esses procedimentos só sejam realizados na gestação quando há uma forte indicação clínica, ou seja, quando não os fazer poderia trazer mais risco à mãe ou ao feto​. Quais seriam essas indicações? De acordo com estudos e recomendações de sociedades médicas, os principais motivos incluem: Hemorragia digestiva significativa ou persistente: Sangramentos no trato gastrointestinal (alto ou baixo) podem ameaçar a saúde materna e exigem investigação imediata​​. Por exemplo, vômitos com sangue ou sangramento retal volumoso são sinais de alerta que muitas vezes justificam uma endoscopia ou colonoscopia de urgência para identificar a causa do sangramento​. Náuseas e vômitos severos e refratários: É comum ter enjôos na gravidez, mas em casos extremos (como na hiperêmese gravídica) ou diante de dor abdominal intensa associada a vômitos persistentes, pode ser indicada uma endoscopia digestiva alta para investigar úlceras ou obstruções que estejam agravando o quadro (Vale notar que, para casos de vômitos típicos da gestação sem sinais de gravidade, geralmente tentamos tratamento clínico primeiro, evitando endoscopia desnecessária​). Dificuldade para engolir ou dor ao engolir: Se a gestante apresenta disfagia (dificuldade para engolir alimentos ou líquidos) ou odinofagia (dor ao engolir), especialmente acompanhadas de perda de peso ou desnutrição, uma endoscopia pode ser fundamental para diagnosticar e tratar a causa (por exemplo, úlceras severas ou estenoses no esôfago)​. Suspeita de condições graves no intestino grosso: Embora evitada de rotina, a colonoscopia pode ser indicada durante a gravidez se houver suspeita forte de massa ou tumor de cólon, ou em casos de diarreia severa sem diagnóstico onde se suspeita de doença inflamatória intestinal ativa​. Ninguém quer submeter uma gestante a colonoscopia desnecessariamente, mas se há sinais preocupantes (como sangramento intestinal importante, risco de câncer de cólon ou colite grave), o exame pode salvar duas vidas – a da mãe e a do bebê – ao permitir um diagnóstico e tratamento precoces. Pancreatite biliar ou colangite (infecção das vias biliares): Gestantes podem ter cálculos (pedras) na vesícula ou no ducto biliar causando pancreatite ou infecção. Nesses casos, às vezes é necessária uma endoscopia terapêutica (como a CPRE, um tipo especial de endoscopia) para desobstruir o canal biliar. Isso foge um pouco da EDA/colonoscopia diagnóstica tradicional, mas vale citar que, diante de um quadro grave biliar, a endoscopia é preferível a uma cirurgia durante a gestação, pois resolve o problema com menos invasão​. Em resumo, somente indicamos EDA ou colonoscopia na gravidez se os benefícios superarem claramente os riscos. Sintomas leves de gastrite, azia controlável, constipação leve – esses geralmente conseguimos manejar com medicamentos seguros para gestantes e medidas dietéticas, deixando exames invasivos como último recurso. O foco é sempre proteger você e o bebê. Riscos e Benefícios: O Que a Gestante Precisa Saber Vamos falar agora sobre os riscos potenciais versus os benefícios de se realizar uma endoscopia ou colonoscopia na gravidez. É natural ter medo do desconhecido, então quero esclarecer cada ponto com base em evidências médicas. Riscos potenciais para a mãe e o bebê: Os estudos mostram que o maior perigo para o feto durante um procedimento desses não é o endoscópio em si, mas sim fatores indiretos, como medicações e alterações na mãe durante o exame. Por exemplo, a sedação usada no exame pode baixar a pressão arterial da mãe ou reduzir sua oxigenação se não for bem monitorada, e isso, por sua vez, pode diminuir a oxigenação do feto​. Daí a importância de uma equipe treinada e de usar a menor dose possível de sedativos. Alguns medicamentos em altas doses poderiam, teoricamente, afetar o desenvolvimento do bebê (teratogenicidade), especialmente no primeiro trimestre​. Além disso, existe um risco pequeno de complicações do próprio exame, como perfuração do órgão examinado ou sangramento pós-biópsia, mas esses eventos são muito raros quando o procedimento é feito por profissionais experientes. No caso da colonoscopia, há também o desconforto do preparo intestinal e o risco de desidratação se o preparo não for bem orientado – mais um motivo para acompanhamento próximo. Riscos potenciais para o bebê: As principais preocupações são hipóxia fetal, trabalho de parto prematuro ou aborto. O bebê depende da oxigenação materna, então mantemos um cuidado rigoroso para que a mamãe esteja bem oxigenada, sedada na medida certa (sem “exagero” de sedação) e posicionada adequadamente durante o exame para não comprimir vasos sanguíneos importantes​. Procedimentos no primeiro trimestre trazem um risco natural maior de aborto espontâneo (independentemente de qualquer intervenção, pois é o período mais delicado da formação embrionária) – por isso, se pudermos adiar para o segundo trimestre, melhor. No terceiro trimestre, o maior risco seria induzir contrações ou um parto prematuro, especialmente se a mãe já tiver predisposição. Fique tranquila, esses riscos são manejáveis e bastante baixos quando todos os cuidados são tomados​. Por exemplo, uma pesquisa que acompanhou dezenas de gestantes submetidas a endoscopias mostrou que nenhuma delas entrou em trabalho de parto ou teve malformação fetal devido ao procedimento, ocorrendo apenas um caso de aborto em segundo trimestre entre quase cinquenta mulheres avaliadas​. Ou seja, complicações graves são exceção da exceção. Benefícios e por que vale a pena quando indicado: Se o seu médico está recomendando um exame desses durante a gravidez, é porque o benefício esperado supera os riscos. Pense assim: identificar e tratar precocemente uma causa de sangramento gastrointestinal pode salvar a vida da mãe, corrigir anemia severa e impedir danos ao bebê por falta de oxigênio. Tratar uma úlcera sangrante via endoscopia é muito menos invasivo do que uma cirurgia de emergência no estômago, por exemplo – e cirurgia na gravidez tem riscos ainda maiores. Da mesma forma, diagnosticar uma colite grave e instituir o tratamento adequado pode evitar complicações que colocariam a gestação em perigo. Segundo especialistas, quando há indicação clara, o endoscópio pode ser um aliado seguro na gravidez, evitando procedimentos radiológicos com radiação ou cirurgias abertas​. Em suma, o maior benefício é cuidar da saúde materna sem esperar meses até o parto, pois a saúde da mãe impacta diretamente a do bebê. Bebês de mães gravemente doentes correm mais riscos do que bebês de mães que foram diagnosticadas e tratadas prontamente. Aqui vale aquela máxima: o que é bom para a mãe, é bom para o bebê – mães saudáveis tendem a ter bebês saudáveis. Segurança e Protocolos Médicos: Como Procedemos A segurança é a nossa prioridade número um. Diversas normas e protocolos médicos norteiam a realização de endoscopias e colonoscopias em gestantes, todos com um objetivo principal: minimizar qualquer risco para mãe e feto, garantindo o máximo de benefício diagnóstico/terapêutico. Vou detalhar como nos preparamos e conduzimos esses exames de forma segura: 1. Momento ideal do exame: Sempre que possível, planejamos o exame para o segundo trimestre da gestação (aproximadamente entre a 14ª e 27ª semana)​. Esse período é considerado o mais “seguro” porque o bebê já passou pelas fases iniciais de formação de órgãos (reduzindo risco de teratogenia) e ainda não é grande o suficiente para tornar o procedimento desconfortável ou aumentar risco de parto prematuro. No primeiro trimestre, a recomendação é adiar o exame a menos que seja absolutamente necessário​. Já no terceiro trimestre, evitamos procedimentos eletivos pois o útero grande pode dificultar a realização do exame e aumentar risco de contrações; só faremos se for algo urgente que não pode esperar algumas semanas até o parto. Em outras palavras: se dá para esperar, a gente espera; se não dá, fazemos no timing mais seguro possível. 2. Avaliação prévia e acompanhamento obstétrico: Nenhuma gestante entra na sala de endoscopia sem antes ter uma avaliação cuidadosa do obstetra. É importante trabalhar sempre em conjunto com o obstetra que acompanha a gravidez, discutindo a real necessidade do exame e quaisquer precauções adicionais. Em casos de emergência em atender uma gestante, solicitamos a presença (ou pelo menos o aval) de um obstetra de plantão. As diretrizes internacionais reforçam que todo exame endoscópico em grávidas deve contar com supervisão obstétrica, inclusive para decidir o nível de monitoramento do bebê durante o procedimento​. Esse trabalho em equipe garante que tanto a saúde digestiva quanto a saúde gestacional estejam sendo cuidadas de forma integrada. 3. Sedação e anestesia seguras: Este talvez seja o ponto que mais preocupa as pacientes: "Qual medicamento vou receber? Faz mal pro bebê?" Fique tranquila – usamos medicações sedativas consideradas seguras na gestação, em doses mínimas efetivas. Na prática, para endoscopias diagnósticas, preferimos a sedação moderada (consciente) em vez de anestesia geral profunda. A sedação é cuidadosamente ajustada para garantir conforto à paciente sem comprometer a segurança da mãe e do bebê. Utilizamos uma abordagem equilibrada, com medicamentos como fentanil e midazolam em doses ajustadas, sempre priorizando a mínima intervenção necessária. Para casos que exigem um nível de sedação mais profundo, como colonoscopias mais demoradas ou procedimentos terapêuticos, contamos com um médico anestesiologista, que pode administrar propofol – um agente de ação rápida e considerado seguro quando utilizado com monitoramento adequado. Toda a sedação é calculada com extrema cautela, levando em conta as mudanças do corpo da gestante, como a alteração no metabolismo dos medicamentos e a maior sensibilidade das vias aéreas. Durante todo o procedimento, a mãe é monitorada quanto aos sinais vitais – frequência cardíaca, pressão arterial, nível de oxigênio no sangue – garantindo sua estabilidade e, indiretamente, o bem-estar do bebê. 4. Cuidados com posição e oxigenação: Durante a realização do exame, pequenos detalhes fazem grande diferença. Colocamos a paciente em decúbito lateral esquerdo (deitada sobre o lado esquerdo) ou com uma leve inclinação pélvica para a esquerda​. Essa posição evita que o útero comprima a veia cava inferior, o grande vaso que leva sangue de volta ao coração – se essa veia ficar comprimida, pode cair a pressão materna e a circulação para o útero diminui​. Com a posição correta, mantemos o fluxo sanguíneo ideal para o bebê. Também administramos oxigênio suplementar pela cânula nasal durante o exame, mesmo que a saturação da mãe esteja boa, como precaução extra para assegurar níveis ótimos de oxigênio. E lembrando: jejum rigoroso antes do exame! Orientamos a gestante a respeitar o jejum de 8 horas para sólidos (e um jejum menor para líquidos claros), reduzindo muito o risco de regurgitação e aspiração de conteúdo ácido do estômago durante a sedação – isso é importante em qualquer pessoa, mas especialmente na grávida, porque o estômago demora mais para esvaziar e o útero empurra tudo para cima, aumentando a chance de refluxo. Segurança começa com a preparação adequada. 5. Monitoramento fetal: Uma dúvida comum é "O bebê será monitorado durante a endoscopia?". A resposta depende da idade gestacional e da disponibilidade de recursos. Em gestações mais iniciais (primeiro e segundo trimestres até cerca de 24 semanas), o feto é muito pequeno para um monitoramento contínuo efetivo; então normalmente checamos os batimentos cardíacos fetais com um doppler antes do início do exame e logo após o término, confirmando que estão normais​. Já em gestações mais avançadas (acima de ~24 semanas), quando o bebê já é viável e mais sensível a alterações, é recomendado fazermos um monitoramento eletrônico fetal e de possíveis contrações uterinas antes e depois do procedimento​. Em alguns casos, se o exame for prolongado ou a paciente tiver fatores de risco, podemos monitorar o bebê continuamente durante a endoscopia – isso requer uma estrutura de sala cirúrgica com cardiotocógrafo e, de preferência, presença de um obstetra ou enfermeira obstétrica ao lado. Em locais adequados (como hospitais com UTI neonatal disponível), esse monitoramento contínuo durante o exame traz ainda mais tranquilidade de que o bebê está bem o tempo todo​. Reforçando: a decisão de monitorar contínuamente é individualizada; nem sempre é necessário, mas em gestações avançadas nós preferimos pecar pelo excesso de cuidado. E claro, se houver qualquer alteração (por exemplo, contrações uterinas durante o exame, ou queda do batimento fetal após), temos protocolos de ação rápida junto com a equipe de obstetrícia. 6. Contraindicações absolutas: Poucas situações realmente impedem a realização de um exame endoscópico numa grávida quando ele é necessário, mas vale citar: se a gestante estiver com um quadro de descolamento prematuro de placenta, trabalho de parto iminente, ruptura de bolsa ou eclâmpsia não controlada, então o exame digestivo fica contraindicado naquele momento​. Primeiro estabiliza-se a condição obstétrica emergencial, pois essas situações põem em risco imediato a vida do bebê (e da mãe, no caso de eclâmpsia). Fora desses casos, praticamente todas as outras condições podem ser manejadas para viabilizar o exame com segurança. Seguindo todos esses protocolos, a literatura médica e nossa experiência prática indicam que endoscopias e colonoscopias podem ser realizadas com segurança em gestantes, desde que com indicações precisas e todos os cuidados acima. Institutions internacionais renomadas como a Mayo Clinic, a Harvard Medical School e o American College of Gastroenterology reafirmam que, com a técnica adequada e monitorização, o risco desses exames na gravidez é baixo e aceitável frente à necessidade clínica. Em síntese, você não está desamparada: se precisar fazer o exame, estaremos preparados para cuidar de você e do seu bebê em cada detalhe. Cuidados Especiais: Sedação, Recuperação e Monitoramento Pós-Exame Após o procedimento, a gestante continua sendo observada até que esteja completamente desperta e estável. O pós-exame imediato envolve checar novamente os batimentos fetais (nos casos em que a idade gestacional já permite ausculta fetal) e certificar que não há contrações uterinas ou qualquer sinal de sangramento ou complicação. A recuperação da sedação em grávidas costuma ser semelhante a de outras pessoas, embora alguns medicamentos possam deixá-la um pouco mais sonolenta ou com náuseas – sintomas esses que monitoramos e tratamos conforme necessário. Uma dúvida comum é sobre amamentação (no caso de gestantes que já têm um bebê lactente em casa ou pensando adiante, após o parto): alguns sedativos, como o fentanil e o propofol, são compatíveis com a amamentação assim que a mãe se recupera, sem necessidade de descartar leite. Já o midazolam, se for utilizado, requer um intervalo de cerca de 4 horas antes de retomar a amamentação, para garantir eliminação do fármaco​. Eu sempre oriento essas condutas no pós-exame caso a paciente já esteja amamentando outro filho ou pretenda amamentar logo depois do parto. Novamente, tudo pensando em segurança para o bebê e tranquilidade para a mamãe. Vale ressaltar que, diferente de exames radiológicos, a endoscopia digestiva não envolve radiação (exceto em procedimentos específicos como CPRE, onde tomamos cuidados rigorosos de proteção caso haja necessidade de radioscopia). Portanto, não há exposição radioativa ao bebê em uma endoscopia ou colonoscopia diagnóstica comum, o que já elimina um dos temores que muitas pacientes têm em relação a exames durante a gravidez. Por fim, após receber alta do exame, as orientações incluem: repouso relativo no restante do dia, hidratação abundante (principalmente se houve preparo intestinal para colonoscopia), manter alimentação leve conforme tolerado e observar qualquer sintoma anormal.  Eu faço questão de estar acessível após o procedimento para qualquer intercorrência ou dúvida que surja. Felizmente, na imensa maioria das vezes, as pacientes grávidas toleram super bem a endoscopia/colonoscopia e podem retomar suas rotinas normais no dia seguinte, seguindo sempre as recomendações do obstetra para a continuação do pré-natal.
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O câncer colorretal é uma das formas mais comuns e letais de câncer, mas é também um dos mais evitáveis e tratáveis quando diagnosticado precocemente. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), ele é o segundo tipo de câncer mais frequente em homens e em mulheres no Brasil. A taxa de incidência global também é significativa, tornando essencial a conscientização geral sobre métodos preventivos e diagnósticos. Este texto tem como objetivo fornecer uma visão abrangente sobre o câncer colorretal, abordando sua prevenção, diagnóstico e o papel crucial de exames como a colonoscopia e a endoscopia.
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